ESTÓRIA VERÍDICA DO ALENTEJO - AGUIAR,
Distrito de ÉVORA
Nos anos 60 (1960 e tal) a aldeia
AGUIAR, no início do Distrito de Évora tinha muita fama de ser comunista. É que
os Trabalhadores refilavam muito com os donos dos latifúndios de centenas ou
mesmo milhares de hectares de terras existentes à volta da Povoação -
queriam mais salário, estranportes até à aldeia... ora isso no tempo da Outra
Senhora era coisa grave.
Por isso a Diocese não mandava para lá nenhum Padre ou não fosse ele ficar também comunista ou era por castigo desse povo ser tão herege. Mas um dia um Sacerdote mais afoito ofereceu-se ao Bispo para "cristianizar" essas gentes desencaminhadas do Divino Redil. E lá foi ele para o sertão, isto é, para o Alentejo.
Por isso a Diocese não mandava para lá nenhum Padre ou não fosse ele ficar também comunista ou era por castigo desse povo ser tão herege. Mas um dia um Sacerdote mais afoito ofereceu-se ao Bispo para "cristianizar" essas gentes desencaminhadas do Divino Redil. E lá foi ele para o sertão, isto é, para o Alentejo.
Encontrou uma Igreja limpa e a brilhar.
Por aqui as Gentes do Sul costumam caiar as casas uma vez por ano. Isso então
não falha!
Mas faltava-lhe o SINO. A Diocese não forneceu nenhum, porque não havia Padre para chamar os fiéis e também porque era parte do castigo para aquelas Almas desavindas. Não era preciso, nem mereciam!
Este Senhor Prior lá se foi aguentando e o horário da Missa, Terço era por passa-palavra. Casamentos havia poucos ou nenhuns, porque aqui o costume era ajuntarem-se, o Povo era pobre, assim não se gastava dinheiro em bodas e festanças de um dia!
Mas mulheres gostavam de se ir confessar, ou melhor, desabafar a um senhor padre que até era jeitoso. Desabafavam as suas diabruras de fêmeas, havia confiança absoluta porque o que diziam na Confissão não podia ser divulgado e ...tem de se dizer, o Senhor Prior era para elas um belo pedaço de homem, sendo bem olhado pelos buraquinhos do confessionário! Sempre lavadinho e penteado, unhas limpas. Nada parecido com os respectivos companheiros, sempre transando a suadouro do trabalho dos campos, quando não era também os cheiros mijalosos das vacas, ovelhas, cabritos e suínos !
Desse modo o Reverendo foi sabendo os pecados da Freguesia e à força do tempo, foi conhecendo o ambiente da aldeia.
Um dia uma Comissão de Moradores foi falar com o Padre, manifestando-lhe o desejo de terem um SINO no alto do campanário, tal como todas as aldeias em redor. Desconfio eu, à distância do tempo, que a intenção não era lá muito pela fé, mas sim para os trabalhadores do campo ouvirem de longe o toque de recolher a casa, coisa que não agradava lá muito ao latifundiário ou ao seu feitor lacaio.
-- O Senhor Bispo diz que não tem dinheiro para dar um sino. Assim sendo, a única solução é o Povo fazer uma subscrição e eu mesmo me encarrego de ir a Lisboa comprar um sino de bronze, um bem bonito, com uma cruz e nome da nossa Aldeia.
Assim foi. Passados uns meses, essa tal Comissão de Moradores foi entregar ao Senhor Padre uma boa mão cheia de notas a fim de ele comprar o tal sino.
E lá foi o Ministro de Deus até Lisboa com o bolso da batina atafulhado das notas.
Passou-se um mês, dois meses...e nada de sino nem de padre.
Já o Povo desconfiava de marosca, quando numa bela manhã de domingo, ali junto ao Largo da Aldeia pára uma camioneta e o chauffer pergunta ao primeiro aldeão:
-Aqui é que é Aguiar? Trago aqui um caixote pesado com ordens para deixar aqui na Aldeia...
Depressa se espalhou a notícia pela Aldeia e gritaram uns para os outros:
Aquilo foi uma correria de todo o Povo para verem o seu SINO. Ninguém quis ficar em casa. Todos queriam assistir ao abrir do pesado caixote!
Não havia maneira de abrir o caixote, tão bem pregado ele estava. Mas diziam: isto abana muito! Sino não pode abanar, é pesado!
Com uma alavanca conseguiram tirar as tábuas cimeiras e após removerem o papelão protector, eis que fica destapada a mercadoria:
Então não é que o caixote estava completamente cheio de CORNOS? Isso mesmo: cornos de carneiros, de bodes, de bois...às dezenas, qual deles o mais torcido!
Bem. Nunca nenhuma pessoa do Mundo foi tão injuriada e difamada como esse Padre. Era filho disto, filho daquilo, cabrão, filho de uma folha de alface, paneleiro...
Até o ameaçaram com juras que se voltasse à Aldeia seria CAPADO das partes inúteis!
O caixote cheio de cornos ali ficou especado ao sol uma porção de dias, à vista de todos. E o pior era que os carros e camionetas que passavam pela Aldeia eram obrigadas a olhar o caixote, estava rente à estrada...
Depressa o Povo converteu o acontecimento em brincadeira.
As mulheres, durante a semana, passavam pelo caixote e diziam umas às outras:
-Olha... aqueles ali parecem os do teu homem!
-Pelo menos é o mais bonito par de cornos, os do teu nem cabem no caixote !
Ainda hoje, volvidos quase 70 anos, se alguém passa pela aldeia e pergunta pelo sino a algum habitante, de certeza que é corrido à pedrada !
Recolha de José Jorge Cameira
Mas faltava-lhe o SINO. A Diocese não forneceu nenhum, porque não havia Padre para chamar os fiéis e também porque era parte do castigo para aquelas Almas desavindas. Não era preciso, nem mereciam!
Este Senhor Prior lá se foi aguentando e o horário da Missa, Terço era por passa-palavra. Casamentos havia poucos ou nenhuns, porque aqui o costume era ajuntarem-se, o Povo era pobre, assim não se gastava dinheiro em bodas e festanças de um dia!
Mas mulheres gostavam de se ir confessar, ou melhor, desabafar a um senhor padre que até era jeitoso. Desabafavam as suas diabruras de fêmeas, havia confiança absoluta porque o que diziam na Confissão não podia ser divulgado e ...tem de se dizer, o Senhor Prior era para elas um belo pedaço de homem, sendo bem olhado pelos buraquinhos do confessionário! Sempre lavadinho e penteado, unhas limpas. Nada parecido com os respectivos companheiros, sempre transando a suadouro do trabalho dos campos, quando não era também os cheiros mijalosos das vacas, ovelhas, cabritos e suínos !
Desse modo o Reverendo foi sabendo os pecados da Freguesia e à força do tempo, foi conhecendo o ambiente da aldeia.
Um dia uma Comissão de Moradores foi falar com o Padre, manifestando-lhe o desejo de terem um SINO no alto do campanário, tal como todas as aldeias em redor. Desconfio eu, à distância do tempo, que a intenção não era lá muito pela fé, mas sim para os trabalhadores do campo ouvirem de longe o toque de recolher a casa, coisa que não agradava lá muito ao latifundiário ou ao seu feitor lacaio.
-- O Senhor Bispo diz que não tem dinheiro para dar um sino. Assim sendo, a única solução é o Povo fazer uma subscrição e eu mesmo me encarrego de ir a Lisboa comprar um sino de bronze, um bem bonito, com uma cruz e nome da nossa Aldeia.
Assim foi. Passados uns meses, essa tal Comissão de Moradores foi entregar ao Senhor Padre uma boa mão cheia de notas a fim de ele comprar o tal sino.
E lá foi o Ministro de Deus até Lisboa com o bolso da batina atafulhado das notas.
Passou-se um mês, dois meses...e nada de sino nem de padre.
Já o Povo desconfiava de marosca, quando numa bela manhã de domingo, ali junto ao Largo da Aldeia pára uma camioneta e o chauffer pergunta ao primeiro aldeão:
-Aqui é que é Aguiar? Trago aqui um caixote pesado com ordens para deixar aqui na Aldeia...
Depressa se espalhou a notícia pela Aldeia e gritaram uns para os outros:
- CHEGOU O NOSSO SINO!
Aquilo foi uma correria de todo o Povo para verem o seu SINO. Ninguém quis ficar em casa. Todos queriam assistir ao abrir do pesado caixote!
Não havia maneira de abrir o caixote, tão bem pregado ele estava. Mas diziam: isto abana muito! Sino não pode abanar, é pesado!
Com uma alavanca conseguiram tirar as tábuas cimeiras e após removerem o papelão protector, eis que fica destapada a mercadoria:
Então não é que o caixote estava completamente cheio de CORNOS? Isso mesmo: cornos de carneiros, de bodes, de bois...às dezenas, qual deles o mais torcido!
Bem. Nunca nenhuma pessoa do Mundo foi tão injuriada e difamada como esse Padre. Era filho disto, filho daquilo, cabrão, filho de uma folha de alface, paneleiro...
Até o ameaçaram com juras que se voltasse à Aldeia seria CAPADO das partes inúteis!
O caixote cheio de cornos ali ficou especado ao sol uma porção de dias, à vista de todos. E o pior era que os carros e camionetas que passavam pela Aldeia eram obrigadas a olhar o caixote, estava rente à estrada...
Depressa o Povo converteu o acontecimento em brincadeira.
As mulheres, durante a semana, passavam pelo caixote e diziam umas às outras:
-Olha... aqueles ali parecem os do teu homem!
-Pelo menos é o mais bonito par de cornos, os do teu nem cabem no caixote !
Ainda hoje, volvidos quase 70 anos, se alguém passa pela aldeia e pergunta pelo sino a algum habitante, de certeza que é corrido à pedrada !
Recolha de José Jorge Cameira
(foto da Wikipedia)

















